segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A imprensa que perde o amigo (a verdade), mas não perde a piada (a manchete).


Estou com dor de cabeça. E a culpa é da notícia.

Da notícia sempre mal dada. Daquele tipo, que perde o amigo, mas não perde a piada. Nesse caso, perde a verdade, mas não perde a manchete.

Eu já não sei se é um problema de má formação, de caráter ou se já se imiscuiu no DNA jornalístico a irresponsabilidade com a notícia, com a informação, com o dado.

Da minha convivência no meio acadêmico, fui amaldiçoado com essa preocupação com a fidelidade das informações e dos dados. Uma informação errada num texto de uma dissertação de mestrado pode lhe custar uma bronca homérica, um re-trabalho enorme, isso quando não uma punição severa, seja ela objetiva ou subjetiva, por meio da discriminação dos seus pares.

Lógico que muito de meus colegas não estão nem aí para isso. Mas certamente que não é esse o padrão da academia. A lógica que prevalece é o rigor e o que lhe foge acaba negativamente marcado.

Na imprensa não tem nada disso. Escrevem o que querem, pesquisam minutos para compor uma matéria que irá influenciar a vida de centenas, quando não milhares de pessoas. Criam factóides mentirosos só para obter uma frase de efeito, pouco importando a veracidade ou as conseqüências daquela manchete.

Semana passada no site gazeta on line sul, divulgaram a informação que Cachoeiro era a cidade mais violenta do sul do estado. Absurdo. Não sei de onde tiraram essa informação, mas o fato é que Marataízes, Itapemirim e Presidente Kenedy, só para começar, tem índices de violência maiores que Cachoeiro na região. Proporcional ao seu tamanho, Cachoeiro é bem tranqüilo em relação ao estado, principalmente o norte, que ostenta em Jaguaré, por exemplo,  um índice de homicídios em 2010 de 109 por 100 mil habitantes, enquanto o de nossa cidade é 25,8 (dados do Instituto Jones dos Santos Neves, diga-se de passagem).

Então hoje, no site do gazeta on line sul, novamente, a manchete “MAIS ASSALTOS SÃO REGISTRADOS EM CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM”. Pois é, para compor essa manchete, eles tomaram como referência os índices de assaltos de DOIS FINS DE SEMANA.

Dá para acreditar?

Apesar de ter apresentado algumas informações incorretas (Jackson, eu sei que não foi de má fé, mas eu não disse que o Instituto Jones mentiu), o jornal Fato de domingo trouxe um pouco mais de luz a questão da violência na cidade. E o jornal Folha do Caparaó, com uma outra abordagem, também trouxe dados importantes, que mostram essa farsa que a Rede Gazeta quer criar, de que Cachoeiro de Itapemirim é uma cidade violenta.

Recomendo aos que me lêem nesse blog, que desconfiem de todas as informações que são publicadas pela Rede Gazeta, seja na TV, nos jornais e principalmente nos sites. Se eles manipulam os dados sobre violência, provavelmente manipulam outros também.

E que priorizem os jornais locais, que apesar de vez ou outra pecarem por alguma inexperiência, tem muito mais compromisso com nossa cidade e com nossa região. Além de serem mais éticos, não ficam encastelados sob a marca de uma empresa poderosa que abafa a verdade com sua fábrica midiática de factóides.

BOICOTE A REDE GAZETA, JÁ!!!!!!!!!

domingo, 19 de setembro de 2010

Mais uma...

“Pela sucessão de indícios, observamos que há realmente tráfico de influência. É difícil que cada fato desses seja apenas uma mera coincidência"

Marinus Marsico, procurador do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União

A que nível chegou a justiça brasileira. Um procurador vai a mídia fazer aquilo que esse país lutou e luta a séculos para estabelecer: a presunção de inocência.

A fala do procurador já mostra sua tendenciosidade para acusar antes de investigar. Com base no que ele realmente reconhece serem “indícios”, ele afirma categoricamente que um determinado fato é real.

Portanto, com base nos indícios, sobejos, posso afirmar que realmente a mídia não deve receber crédito. Ou então, pela ausência de indícios, usando o raciocínio inverso, posso afirmar que realmente Deus não existe.

Indícios são indícios, pelo que me consta. E com base em indícios, não se pode concluir por nenhuma realidade, ou qualquer coisa que se possa intitular real.

A fala do procurador só faz confirmar o que já sabemos. Há no Brasil uma disposição mórbida para a acusação prévia. Para se admirar manchetes espalhafatosas que ou manchadas de sangue ou detratoras da imagem alheia, se aproveitam da tragédia para interesses mesquinhos próprios.

É o vale tudo, que não existe só na política brasileira, e que tão claro aparece nos dias próximos à eleição. É o vale tudo do funcionário que denigre o colega pelo cargo, da ex mulher que denigre o ex marido pela pensão e para afasta-lo do filho, do aluno que denigre o professor para justificar sua incompetência diante de suas obrigações, do homem que denigre a mulher diante de sua postura indigna, do ser humano que não assume suas responsabilidades, suas derrotas, e com elas aprende a obter suas vitórias.

Se eu pudesse dizer algo ao procurador da infeliz frase, diria-lhe, com toda a educação: o senhor prestou um grande desserviço não a um político ou a uma eleição, mas a população brasileira, ao sacrificar no altar do populismo aquilo que temos tanto lutado para superar nesse país.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Imprensa: Arrogância sobre a burrice para disfarçar interesses.

Faz tempo que a imprensa me traz certa ojeriza. Embora contanto com alguns amigos no meio, um ou outro que eu admire, o conjunto da obra não deixa de ser trágico.


Mais trágico, a meu ver, é a áurea messiânica com o qual jornalistas e pretensos jornalistas – em Cachoeiro coisa comum – se auto revestem. Colocam-se como verdadeiros arautos da moralidade, da defesa do interesse público, da sociedade e do bem comum, como se os veículos nos quais ganham seu sustento ou com o qual produzem a mais valia do trabalho muitas vezes estapafúrdio de seus repórteres, não fossem eles mesmos contaminados com a voracidade do capital.

Além e além do capital, move o jornalista – ou o que assim se auto-intitula – a sensação de poder. Já me dizia Ruy Guedes em meus tempos de rádio difusora: “ O microfone de uma rádio é uma arma poderosa”. Armados, os elementos da mídia se acham no direito de dar carteiradas, estacionar em lugar proibido e dizer imbecilidades em nome da defesa do povo, com a mesma cara de pau que muitos dos políticos que criticam se apresentam em suas sessões semanais de demagogia. Afinal, eles estão armados com o poder de difamar, revelar e, quem os dera, salvar a humanidade.
Certos veículos da imprensa se portam como se fossem os únicos a possuírem a virtude da moralidade. Ignoram a lógica e a racionalidade ou por conta de uma limitada capacidade intelectual ou, em certos momentos, por preguiça e conveniência. Dizem e escrevem o necessário para o momento. Ainda que a verdade aponte em contrário. Verdade dá trabalho e nem sempre dá audiência.

Quem sou eu, um pobre professor desarmado, para me opor aos poderosos da imprensa e aos poderosos que pagam a imprensa? É, naturalmente, muito mais conveniente dar eco aos rompantes de Camilo Cola, o milionário empresário político cachoeirense do que reconhecer que a assessoria do nobre deputado não sabe diferenciar zona urbana de zona rural na hora de alocar recursos em programas, ações e funções de orçamento, metodologias básicas para quem opera no setor público, que, diga-se de passagem, é bem diferente do privado.

É muito fácil usar as páginas do jornal ou as ondas de uma rádio ou TV para impor a um político com mandato um emprego para o seu parente, a retirada de uma multa, um privilégio na distribuição da publicidade ou algo que o equivalha. Se alguém duvida que isso aconteça, seja bem vindo ao país das maravilhas.

O grande sofrimento não são as barganhas dos empresários da imprensa e seus acordos e propostas indecentes e imorais, mas a demagogia e a cara de pau com que determinam a publicação de matérias de má fé, claramente sem embasamento e levianas. Assemelha-se àquele advogado que move uma ação contra alguém por um crime que o próprio autor da ação sabe que nunca aconteceu. No entanto, a justiça pune aquele que dela se utiliza com má fé. Porém, o papel, o microfone, a câmera, a internet, aceitam tudo e não há limites sob o teto da mal interpretada “liberdade de imprensa”.

Naturalmente, esse texto não será publicado em nenhum jornal, em nenhum site e muito menos lido em alguma rádio ou TV. Eu não serei entrevistado para falar das idéias aqui expressas, e muito menos terei o carinho, respeito e a admiração dos conhecidos que trabalham na área. O máximo que vai acontecer, é, entre um gole e outro, aquele reconhecimento discreto, sutil, tácito e sincero de que eu tenho razão, sob o teto do Mercado Municipal tendo um copo de cerveja e dono do bar por testemunhas de frases que jamais serão assumidas em público.

Talvez seja apenas isso mesmo que importe. A sinceridade que emerge depois que o repórter tirou a aureolazinha dourada que flutua sobre sua cabeça.

As boas intenções dos jornalistas são como "chifre". Algo que colocaram na cabeça dele e que ele quer colocar nas nossas.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Ai como é difícil ser candidato...

Bom dia eleitores? Como vão? Tudo na paz de Deus?

Hoje acordamos bem cedinho e fomos visitar a comunidade da Puta que Pariu. Chegando lá e fomos muito bem recebidos pela mãe Joana, que coordena o local. Conheci Bruna Surfistinha e outras moças trabalhadoras da comunidade. Fiquei muito contente com a receptividade ao nosso projeto de foder o mundo.

Depois seguimos para outra comunidade perto. Visitamos o Quinto dos Infernos. Lá chegando fomos recebidos pelo líder comunitário Lulu. Ele e sua turma se reuniram para manifestar apoio a nossa candidatura. Garantimos a eles que estarão presentes no dia a dia do nosso mandato, caso sejamos eleitos, o que se Deus quiser vai acontecer.

Acabei almoçando por lá mesmo. Uma comida horrorosa mas que estava maravilhosa.

Pela tarde fizemos uma caminhada pelo morro do Santo do Pau Oco. Nessa comunidade, conversamos com os líderes comerciais da região, que é muito forte no comércio de produtos e subprodutos de folhas típicas da América do Sul. Prometemos a eles apoio aos negócios informais da comunidade e garantimos nosso apoio às vítimas de injustiças e arbitrariedades policiais da localidade. Lá, a polícia chega e prende gente trabalhadora no exercício de suas atividades comerciais.

A noite participamos de um culto na Igreja Evangélica Pentecostal do Amor Divino Espiritual Supremo Dom de Fazer Barulho na Cabeça dos Outros. Lá nos reunimos com vários pastores e discutimos o tema da pedofilia, que é um grande mal que assola nossa sociedade atual. Precisamos punir essas pessoas que movidas pelo diabo assediam adolescentes menores de idade que vivem com as pernas de fora exibindo as vergonhas gostosas que tem por debaixo das poucas ou muitas saias. Melhor fosse talvez punir o diabo, já que qualquer um de nós pode cair na tentação né.

A noite fomos dormir, certos de que nossa caminhada nos levará a Assembleia de Filhos da Puta que faz as leis desse país.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Minhas reencarnações.

Andei pesquisando sobre minhas últimas encarnações.


Me incomoda o fato de eu ser um sujeito tão incomodado. Deveria haver alguma explicação para eu ser tão chato. Para eu achar que tudo que se passa na TV é idiotice. Ou para ficar irritado com as asneiras que escuto diariamente da boca de criaturas que estão – ou deveriam estar – nos liderando em direção a um “mundo melhor”.

De onde vem essa minha angustia irritadiça que me torna insuportável diante de uma pergunta idiota feita por um imbecil? Quais pecados cometi para merecer a TV Globo? O Galvão Bueno e o Faustão? Quantos eu assassinei para justificar ter que aguentar os vereadores de Cachoeiro, os deputados do Brasil, o presidente da França e o primeiro ministro da Itália.

Que mal eu fiz a humanidade para abrir a minha internet em busca de informação e conhecimento e me deparar com manchetes como “Amy uaimirouse é achada bêbada na rua”. Ou então que a pata, mulher (ex) do pato, perdeu a pensão.

Qual a minha condenação para aguentar os juízes lalau´s e os promotores alá Antonio Conselheiro? Que crime me impõe aguentar Bruno e Mizael a cada vez que ligo a porra da televisão para me distrair das coisas sérias da vida, como trabalhar para colocar comida dentro de casa?
Cheguei na casa meio carregado. O pai me disse que assim não dava para ver minha história noutro mundo.
Cheguei em casa meio arrasado. Cheguei a conclusão que não tem explicação essa maldição.
Azar é meu que fui nascer nessa merda de tempo.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

As (in) justiças do Brasil.

É lugar comum tratar da apropriação do público pelo privado no Brasil. Livros e mais livros, estudos e mais estudos e, sempre caímos nesse velho vício de nossa jovem cidadania.
Já nos dizia José Murilo que ao invés de cidadania, caberia bem no Brasil o termo estadadania. Isso porque cidadania é uma coisa que se conquista. Por esses lados, ter direitos é coisa concedida. Isso não é bom. A concessão não se dá pelo reconhecimento do direito, mas por um sentimento muito menos nobre, do tipo ceder para não perder ou de menosprezo para com os pobres indivíduos que habitam nesse território e desprovidos estão de um apoio patriarcal.
Mas o mundo mudou. Antigamente o padre resolvia os problemas de família e o delegado apartava a briga de bar, sem muito alvoroço e nem muito papel. Não era lá um modelo de cidadania, mas funcionava de alguma forma. Hoje, um simples xingamento ou suposta ofensa moral leva anos de mão em mão, de juiz em juiz, de cartório em cartório, que quando chega a termo ou os litigantes se mataram ou fizeram as pazes.

Me lamentava outro dia de como as pessoas por aqui se utilizam da justiça, que deveria ter um fim público, para seus interesses absolutamente privados e mesquinhos. Para provar suas “opiniões”, vale usar as falhas do sistema jurídico brasileiro que, infelizmente, se deixa usar quando não pune aqueles que movem ações estapafúrdias e mentirosas, consumindo tempo e dinheiro público para fins que ele mesmo condena em suas diretrizes.

Pessoas com crise existencial, dilemas emocionais, raivas contidas e outras anomalias que se aproveitam das limitações dos procedimentos jurídicos para ganhar tempo, para constranger, fazendo denúncias falsas, escolhendo o caminho mais difícil, evitando as soluções, enfim. Promotores que se comportam de forma messiânica, percebendo-se como o supra-sumo da humanidade e os heróis da moralização. Freud explicaria bem esses comportamentos. Mas não vou aqui discutir a intimidade de um superpoderoso absoluto.

Achava que isso era privilégio de nossa democracia tupiniquim quando, em minhas leituras rotineiras, deparei-me com o sociólogo Zigmunt Bauman fazendo as mesmas lamentações quanto ao sistema jurídico inglês.

O ideal de um sistema jurídico é justamente evitar que os conflitos se resolvam a margem da institucionalidade e de forma descontrolada. Nós, civilizados que somos, delegamos a um terceiro que puna e solucione nossas demandas. Quando isso não é feito, voltamos a resolver nossos problemas por nós mesmos e aí é esse caos que estamos vendo ultimamente.

A cada dia a população percebe que uma parcela razoável do judiciário está a serviço de si próprio, de suas convicções e neuroses pessoais. Não está comprometida com um projeto de país, de cidade, de Estado. Por isso o povo se sente cada vez mais desamparado, ao ver que a justiça não soluciona seus problemas. Ao contrário, lhe dá despesa, lhe causa constrangimento, prejuízos e, muitas vezes, depois de muito nada, dá-lhe uma bofetada aposentando um juiz assassino ou ladrão com um salário de vinte mil reais.

Naturalmente não existem somente maçãs podres. Há um movimento dentro do judiciário brasileiro de reforma, de agilidade, de modernidade e de respeito à cidadania. Que nega esse passado bacharelista e busca um modelo de operador jurídico envolvido nas questões do lugar. Gente que não sai por aí inviabilizando a gestão de um município com centenas de demissões porque trezentas gerações de prefeitos anteriores fizeram das prefeituras cabides de emprego.

Esses questionamentos são muito mais graves do que minha frágil ironia tenta disfarçar. Não se pode deixar de relacionar a alta taxa de homicídios do Brasil a ineficiência da investigação policial e dos procedimentos jurídicos penais. O povo não se engana. Ele sabe que o pobre apanha e vai preso quando rouba a galinha, enquanto o político ou o desembargador que rouba milhões é aposentado. Tudo isso se reflete numa postura amoral da população, por falta desse referencial de comportamento social.

Já maltratamos muito os políticos que, cá entre nós, merecem muito de nossas críticas. Mas vejo que urge que direcionemos duras e profundas críticas, apoiadas por fortes movimentos sociais, a classe jurídica. A meu ver, mais perniciosa quando corrompida ou embebida na sede de poder do que a classe política.

Juiz ou promotor não é deus ou semi-deus na terra. É empregado do povo brasileiro. E ganha muito bem. Portanto, deve ser muito, mas muito cobrado.

Cobremos então.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Comentando sobre nada...

A moda ultimamente é ser comentarista.

De fato, as pessoas andam com preguiça de pensar. Então, além de dar a informação, a mídia já oferece a opinião sobre a informação, de maneira que o consumidor escolha a opinião que mais lhe agrada. O pacote vai completo.

No futebol, tem gente que vai de Casagrande. Outros vão de Júnior. Eu vou de Noronha. É mais original. Os outros são muito óbvios. Menosprezam minha inteligência. Pelo menos o Noronha é divertido.

Mas essa de comentarista anda se espalhando por todas as áreas. Um comentarista jurídico para comentar os andamentos da investigação policial. Comentarista econômico para dizer com propriedade coisas que eu não entendo. Comentarista de tudo quanto é jeito.
E, claro, o comentarista político.
Há uma diferença entre comentar e analisar. Comentar é dizer o óbvio, com base no sentimento. Coisas como “o sol está quente”, “A estrela está brilhando”, são típicas de comentaristas. Para analisar são necessários números, dados, informações e conhecimento para processar tudo isso e entregar bem mastigadinho para o telespectador, leitor ou o que seja.

Muitos comentaristas têm pretensões de analistas. Citam números, argumentos, tentam convencer que estão analisando, mas estão comentando. E alguns caem nessa do comentário, interpretando como análise.

Nessa época de campanha eleitoral proliferam-se comentaristas políticos com ares de analistas. Devaneios voluntariosos que se vestem de saias de números e tentam rodar a baiana.

Outro dia vi desses nesses sites noticiosos da vida. De um articulista famoso na cidade. Invertia as lógicas. Dizia ele que se o candidato a deputado estadual do prefeito fosse eleito ameaçaria a reeleição do próprio prefeito, que, supõe ele, está em baixa. Ilógico, já que se o candidato do prefeito a deputado estadual ganhar, é sinal bem claro que o prefeito está é em alta, e, portanto, apto a se candidatar à reeleição daqui a dois anos. Isso se existir mundo até lá, ou uma crise econômica não varrer o capitalismo e o comunismo emergir, ou quem sabe um furacão, coisas dessas que nem comentarista e nem analista consegue prever.

Ciência virou papo de botequim. Não me surpreenderei quando chegar no bar do Careca e presenciar alguma discussão sobre física quântica ou química dos materiais. Enquanto esse santo dia não chega, vamos assistindo de camarote a vulgarização da velha e boa Ciência Política. Aquela que se fazia com muito estudo e trabalho e que agora pretensamente se faz semanalmente em artigozinho de jornal ou site.

Certas coisas ficam melhor na universidade. Ou no botequim. Tanto faz.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Sobre futebol e outras coisas que ficaram chatas....

Antigamente ver futebol era instigante. Ouvia-se no rádio a emoção que o locutor atribuía a lances quase sem emoção. Aquela coisa típica da bola que passa perto da bandeira de canto e ficamos convencidos de ter passado perto da trave.
Vi de perto o nobre trabalho de transformar disputas de várzea em grandes e inesquecíveis clássicos interioranos.
Mesmo na televisão, houve um tempo que assistir futebol era interessante. Apesar de a magia da imagem reduzir a magia da imaginação, antes tão presente no rádio, era possível imergir na partida.

Hoje a coisa está ficando complicada. Comentaristas explicam tudo, inclusive o inexplicável. Uma quantidade enorme de estatísticas chatas, programas de computador, e outros recursos tem tirado de nós o benefício da dúvida, resolvendo questões que não eram para ser resolvidas e que, justamente por não serem resolvidos, davam ao futebol esse sabor popular de polêmica. Assistir a futebol hoje me lembra pesquisa científica.

Jabiraca com chip, juiz biônico, televisão e Arnaldo Cesar Coelho são inovações que ninguém que preza pelo esporte merece. Por pior e mais insuportável que seja, o Galvão Bueno ainda é aquele que preserva a essência do futebol, discordando até do óbvio para defender suas opiniões espavetadas.
Coisas que se ouve numa transmissão de copa do mundo:

“Se eles não fizerem um gol eles vão empatar ou perder”
Claro que não! No futebol, quem leva mais gol ganha.

“O time precisa se defender bem se não acaba tomando um gol”
É possível que o time que se defende mal nunca leve um gol porque o que o adversário ataca ainda pior.

“A equipe precisa ir para cima e empatar, senão vai perder o jogo”
Perder é legal. Vamos ficar paradinhos.

“Se foi falta dentro da área é pênalti”
Claro que não. Falta dentro da área é tiro de meta.

“Está faltando um homem de ligação”
Chama alguém da empresa de eletricidade!

O futebol está ficando chato. O mundo está ficando chato, com seus números, estatísticas de posse de bola, passes errados, e etc. Ninguém pode mais simplesmente jogar, torcer, amar, ganhar ou perder. Precisa explicar infinitamente porque ganha, porque perde, e de tanto procurar explicações acaba perdendo o sentido de porque vive.
Precisamos inventar um novo esporte.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Alguém no trem para Mariana...

Eu sou alguém no trem para Mariana.

Tem tanta gente na estação. Já não tem mais tanta gente na estação.

Tudo já se foi e a estação é agora alegoria do que passou, de gente que foi e não mais voltou.


Mas ainda eu assim eu vou no trem para Mariana.

A paisagem da janela é de chão pobre de coisa e rico de outra coisa.

Vez em quando a luz some e tudo parece aquilo que é – nada.

O trem não é azul. E não espere desse trilho resposta para alguma angústia.


O audaz do Manoel perdeu a hora. Enquanto isso um andarilho de luz achou o tempo.


E no fim das contas, eu sou é isso. Alguém da América do Sul, no trem de minas, de dores e tambores, indo de Ouro Preto para Mariana, perdido em Abbey Road.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Vomitações de vida...

Tenho me esforçado ultimamente para escrever coisas úteis.


Senão úteis, pelo menos com aparência de coisa séria.

Coisas que não sejam desabafos pessoais sobre minha condição afetiva, ultimamente estável e feliz, ou a covardia de certas pessoas que insistem em tentar evitar que eu conviva com meu filho.

Lições - e não vomitações - de vida, dessas que se tira ao término de uma crônica bem escrita.

Hoje até pensei em escrever sobre o fiasco brasileiro na copa do mundo, ou o fim de semana em Ouro Preto, que além de agradável, me permitiu desafogar as mágoas futebolísticas azucrinando a cabeça de um pobre e menos decepcionado argentino que nos acompanhava ora em Museus, ora em botecos.

Cheguei a estar com um texto pronto sobre a justiça no Brasil. Lógico que iria dizer mil horrores do brasileiro, como os brasileiros costumam fazer. Antes de publicar as asneiras me deparei em minhas pesquisas com o fato de que o inglês, esse mesmo da Inglaterra, o “berço” da cidadania, é mil vezes mais filho da puta que o brasileiro de termos de usar a justiça de forma deturpada.

No fim das contas, descobri que o melhor é mandar a boa retórica para a puta que o pariu. E levando junto os críticos literários e toda essa tropa que insiste em transformar a vida e a arte em equação de segunda categoria, decifrável aos códigos intraduzíveis do pragmatismo sem utilidade.

Se toda arte não é desabafo, que todo desabafo seja arte. A arte de vomitar em público aquilo que lhe incomoda. Ainda que seja um uísque de boa qualidade que, em excesso, acaba por prejudicar seus sistemas interiores.

Se alguém vai gostar do que eu escrevi, não importa. Mas digo, com certeza, durmo mais leve, e deixo um leve sabor de vômito no teclado.



Sabedoria da Tentadora:  A vida é ruim demais para ficar desperdiçando bons momentos.